13/02/2026

Palacete Piauí: um resgate da história arquitetônica de Higienópolis

Palacete Piauí: um resgate da história arquitetônica de Higienópolis

Palacete Piauí: um resgate da história arquitetônica de Higienópolis

Durante cerca de 20 anos, um dos endereços mais emblemáticos de Higienópolis permaneceu em silêncio. Portões fechados, janelas encobertas, detalhes escondidos sob camadas de tinta e intervenções do tempo. O Palacete Piauí, construído entre 1916 e 1918 na esquina das ruas Piauí e Itacolomi, parecia suspenso no passado, como se aguardasse o momento certo para voltar a respirar.

Esse momento chegou. E, com ele, não apenas um restauro arquitetônico, mas a devolução de um capítulo importante da memória urbana de São Paulo.

Neste artigo, você percorre a história do Palacete Piauí, entende por que ele é tão relevante para Higienópolis, descobre os bastidores de um restauro conduzido com rigor técnico e sensibilidade histórica e sabe como visitar esse patrimônio hoje, já reintegrado à cidade.

O que é o Palacete Piauí e por que ele importa

O Palacete Piauí foi erguido em um período decisivo da cidade. Entre 1916 e 1918, São Paulo vivia os reflexos do ciclo do café e da consolidação de uma elite urbana que moldava bairros inteiros com referências europeias. Higienópolis surgia como um desses territórios simbólicos, reunindo residências que expressavam status, repertório cultural e ambições arquitetônicas.

Inspirado nas tendências do art nouveau, o palacete foi residência da família de José Martiniano Rodrigues Alves, sobrinho do ex-presidente Rodrigues Alves. Sua implantação, na Rua Piauí, 527, e a relação com o entorno reforçam a importância do Palacete como documento físico de uma época em que arquitetura e urbanismo caminhavam juntos.

Parcialmente tombado pelo Conpresp, o Palacete Piauí não é apenas um casarão preservado. Ele é uma peça-chave para compreender as transformações do bairro, a ocupação do solo urbano e a forma como a cidade dialoga, ou deixa de dialogar, com o próprio passado.

O restauro: quando técnica vira narrativa

Restaurar um edifício histórico exige mais do que devolver aparência. Exige escuta, pesquisa, método e respeito. No caso do Palacete Piauí, o processo foi conduzido ao longo de cerca de três anos, entre projetos, aprovações e obras.

Sob a liderança de Antônio Sarasá, do Estúdio Sarasá (referência em conservação e zeladoria do patrimônio cultural), o restauro partiu de um princípio claro: retirar interferências acumuladas ao longo do tempo e recuperar a leitura original do edifício, sem “maquiar” sua história.

Ao longo do processo, vieram as descobertas que fazem desse tipo de intervenção uma experiência quase arqueológica: pinturas murais reveladas, gradis em estilo vienense, aplicação de símile pierre, serralherias ornamentais com folhas de café, forros de estuque, lambris, vitrais florais e pisos de mosaico em cerâmica reapareceram pouco a pouco.

No interior, o hall com capitéis, a escadaria de mármore, a boiserie e os delicados trabalhos em madeira da antiga sala de jantar ajudam a entender a sofisticação do projeto original. Cada elemento recuperado não é apenas decorativo: ele conta algo sobre técnicas construtivas, repertório estético e modos de viver do início do século 20.

“Ponte entre tempos”: o casarão e a cidade contemporânea

O Palacete Piauí retorna à cidade com um papel que vai além da contemplação. O conceito que orienta sua reintegração é o de ponte entre tempos: passado, presente e futuro urbano convivendo no mesmo endereço.

Hoje, o edifício histórico se conecta ao Casa Piauí Higienópolis, formando um conjunto que respeita o entorno e cria novas possibilidades de uso. No térreo, a integração urbana se dá por meio do ComVem, além de um espaço de fruição que conecta as ruas Piauí e Itacolomi, convidando à circulação, à pausa e ao encontro.

Essa relação com a cidade reforça uma ideia fundamental da preservação patrimonial contemporânea: edifícios históricos não precisam ser peças isoladas ou congeladas no tempo. Quando bem cuidados, eles podem continuar vivos, acessíveis e relevantes para o cotidiano urbano.

Como visitar: tours, roteiro e experiência

Mais do que restaurado, o Palacete Piauí está aberto à experiência do público. O espaço passa a receber intervenções culturais e visitas guiadas, permitindo que mais pessoas conheçam de perto os detalhes do restauro e a história do edifício.

O Palacete Piauí reabre as portas agora em fevereiro de 2026, para visitas guiadas gratuitas, com duração aproximada de 30 minutos, conduzidas pelo Estúdio Sarasá. As inscrições podem ser feitas pelo site: helborincorporadora.com.br/palacetepiaui.

O palacete também integra o programa Vai de Roteiro, da Secretaria Municipal de Turismo. Aos sábados, por volta das 12h30, o edifício recebe uma visita de até 15 minutos como parte do trajeto cultural pelo bairro.

Outro destaque é a exposição “Retratos de um Restauro”, de Rita Bonanata, que apresenta registros do antes e depois da obra. As imagens ajudam a visualizar o cuidado envolvido no processo e tornam ainda mais evidente a transformação do espaço. A entrada é gratuita.

Preservar é manter a cidade legível

Restaurar o Palacete Piauí foi, antes de tudo, um exercício de responsabilidade com a cidade. Preservar não é apenas conservar fachadas, mas manter vivas as camadas que ajudam a entender quem somos e como chegamos até aqui.

Ao devolver esse patrimônio a Higienópolis, o restauro cria uma conexão entre gerações e reafirma a importância de uma cidade que reconhece valor em sua própria história.

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